em 80% dos acidentes de trânsito, os condutores ingeriram álcool

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80% dos acidentados no trânsito ingeriram álcool

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A associação do álcool com o automóvel está presente no inconsciente da sociedade e é uma das causas de acidentes no Brasil. No Ceará, muitas vítimas chegam aos hospitais com sinais de embriaguez (Foto: Gustavo Pellizzon)

A associação entre álcool e direção é forte no subconsciente da população e promove o aumento dos acidentes

Era noite quando o gerente de produção de uma fábrica de calçados de Quixeramobim, José Roberto Farias Lopes, voltava para casa de motocicleta com o sobrinho. A estrada estava escura e, de repente, sem saber ao certo o que havia acontecido, Roberto estava no chão. A dor o impediu de racionalizar o que se passara. Depois, já no Instituto Dr. José Frota (IJF), diagnosticado com uma fratura exposta na perna direita, luxação na bacia e muitos ferimentos, ele soube o que de fato ocorrera: o seu sobrinho, que estava alcoolizado e conduzindo a moto, colidiu com um carro parado no acostamento.

A história de Roberto é mais uma das que chegam diariamente ao “Frotão”, muitas delas envolvendo uma combinação perigosa: álcool e direção. Segundo o superintendente do hospital, Wandemberg dos Santos, cerca de 80% das vítimas do trânsito que chegam à unidade apresentam sinais aparentes de ingestão de álcool. São vítimas de atropelamento, condutores ou mesmo passageiros de automóveis ou garupeiros de motos que ingeriram bebida alcoólica.

“Esse acidente foi uma lição de vida. Trânsito não combina com álcool e quem for pilotar moto deve estar consciente disso”, afirma Roberto Lopes, que está internado há três semanas no IJF, sem previsão de retorno para casa. A tomada de consciência tem que se dar antes que o acidente aconteça e não depois. Como observa o superintendente do IJF, a associação entre álcool e direção está muito presente no subconsciente da população.

Sejam nas publicidades de cerveja ou na comemoração das vitórias na Fórmula 1, o álcool se tornou combustível para o homem, que, de posse de um veículo, tenta superar desafios às custas da velocidade e acaba arriscando a própria vida. O resultado disso é: “a perda de homens e mulheres com menos de 35 anos, na fase produtiva e que farão falta ao País”, observa Wandemberg dos Santos.

Apesar de não existirem pesquisas locais ou regionais que mostrem o envolvimento de mulheres condutoras com o álcool , na prática, o que se observa é que elas se envolvem cada vez mais em acidentes. “Antes era raro ter mulheres ao volante embriagadas, mas com o aumento do poder econômico delas, houve esse impacto social”, avalia o médico.

Para amenizar os transtornos do trânsito na saúde, o superintendente do IJF sugere que a regulamentação da venda de bebidas seja mais rigorosa, a exemplo de outros países como a França e a Inglaterra. Nesses locais, na ocorrência de um crime de trânsito em que fique comprovado que o condutor estava alcoolizado, o valor da fiança é equivalente ao preço do automóvel do criminoso. Também nesses países, quem estiver ao lado de um condutor embriagado também é responsabilizado pelo crime.

“Enquanto as pessoas não se conscientizarem, poderemos perder uma geração de potencialidades para o País”, frisou. As lamentações pelo trânsito giram sempre em torno das mortes, que fragilizam a sociedade, mas há também aqueles que não perdem a vida, mas o prazer de viver por conta de mutilações. “Quem fica mutilado prejudica a família, porque passa a depender da seguridade social, mas muitos deles não têm nem vínculo empregatício formal, é caso dos motoboys”.

Essas conseqüências, esquecidas pelos condutores na hora da diversão, viram realidade nas camas de hospital. “Precisamos sensibilizar as pessoas de que o automóvel é um meio de transporte e não uma forma de superar desafios, de que para usar a moto é preciso utilizar os equipamentos de proteção e que nenhum dos dois combina com álcool”, concluiu Wandemberg dos Santos.

Custo

A violência no trânsito tem um custo elevado para a saúde. Somente o IJF, de acordo com os superintendente da unidade, gasta cerca de um terço do seu orçamento anual, aproximadamente R$ 50 milhões, no tratamento das vítimas de acidentes com automóveis. Somente nos três primeiros meses deste ano, 2.783 pessoas foram atendidas no hospital depois de se envolverem em algum acidente de trânsito.

Desse total, 795 tiveram que ficar internadas. Na maioria dos casos, os acidentados com moto são os que chegam em estado mais grave, precisando de internação em UTI. A manutenção desse paciente custa cerca de R$ 1.500, por dia, para o hospital. Levando-se em consideração que um acidentado com moto fique 20 dias na UTI, já se foram 30 mil gastos com um problema que poderia ter sido evitado. Como observa Wandemberg dos Santos, o imposto cobrado pelos veículos não é suficiente para dar o cuidado aos acidentados.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

ALEXANDRE MENEZES SAMPAIO *
sampaio114@ig.com.br

O consumo excessivo leva ao coma

O álcool é um droga depressora do sistema nervoso central. O primeiro local do cérebro a ser atingido por ela é o lobo frontal, responsável pelo controle, pelo juízo. O primeiro comportamento causado pelo álcool é o desinibitório. Ele tira a inibição que temos e, com o aumento da concentração no sangue, atinge o cérebro todo.

Com pequenos níveis de álcool no sangue, a pessoa tem prejuízo da atenção, não responde a estímulos menores que requeiram a prática de desvios, por exemplo. A quantidade de 0,1 mg% já pode indicar um nível alto de concentração de álcool no sangue, a ponto da pessoa ter náuseas, vômitos, alterações de coordenação e equilíbrio.

Com a evolução do quadro, a pessoa alcoolizada apresenta sonolência e alteração do nível de consciência, que pode ser caracterizada pela falta de orientação espaço-temporal. O perigo é que essa situação se encaminhe para um coma alcoólico, que apresenta risco de morte. O risco de coma alcoólico e de acidentes é maior para os jovens que ainda não conhecem os limites do seu organismo e se excedem na ingestão de álcool.

* Psiquiatra

Naiana Rodrigues
Repórter

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